"A picture for anyone who has ever dreamed of a second chance!"
Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Pensei em homenagear essa metade melhor da criação divina com um post. Para mim, um dos filmes que melhor retrata a condição feminina no século XX, época de suas maiores conquistas, é este "Alice não mora mais aqui". O filme conta a história de uma recém viúva suburbana, mãe de um filho pré-adolescente que de repente se vê sozinha no mundo - ou livre, conforme a percepção de cada um. O marido era um caminhoneiro machista que morreu e deixou apenas dívidas e uma hipoteca vencida. O título do filme é o nome de um episódio de um seriado popular nos EUA chamado The Brady Brunch (1969-1974), que recebeu no Brasil o - infame - nome de Família Sol-la-si-do, para não ser confundido com Família Do-re-mi (como se fosse possível).
Uma das melhores coisas do filme é conseguir situar com precisão, a condição da mulher logo após as conquistas feministas do final dos anos 60 (pílula, divórcio, trabalho), às já conquistadas, como o voto. Ah, o início dos anos 70 marca também o começo das dificuldades encontradas com a crise do petróleo, que piorou e muito as aspirações e as condições de vida americanas, juntamente com a Guerra do Vietnã; muita tristeza e desolação.
Pois é neste cenário que Alice se vê, determinada a conseguir um trabalho, um marido e uma nova vida, principalmente se puder ser cantora. Enfrentará grandes obstáculos que hoje as mulheres, se não lidam de maneira melhor, possuem outras alternativas: Alice nasceu para um homem e um casamento apenas; sempre comandou a casa e a família, apesar do não reconhecimento do marido, que, afinal de contas, trazia o dinheiro para casa e também nunca precisou trabalhar - fora, eu quero dizer.
Outra coisa que nos dias de hoje ficou mais fácil enfrentar: Alice tinha uma vocação, cantava muito bem. A primeira cena do filme mostra a personagem aos 8 anos cantando e a mãe ralhando por um motivo o qual não lembro, mas tinha a ver com colocar os pés no chão e deixar de sonhar. Durante o filme inteiro a atriz tenta tornar verdadeira para si mesma que é uma cantora. Repete várias vezes: "I´m a singer!" (Eu sou cantora!). Além de definir quem é, a personagem também tem de enfrentar o fato de que sempre dependeu dos homens (pai, marido etc) e nunca reconheceu sua própria força. Uma lição que muita dona-de-casa brasileira já aprendeu desde que saiu de manhã pela primeira vez para tornar realidade para seus filhos os sonhos que não conseguiu para si própria.
O papel deu o Oscar à maravilhosa Ellen Burstyn, que havia perdido no ano anterior pelo seu papel em O Exorcista. Estava muito em alta à época, já que o diretor era o estupendo Martin Scorcese (Os bons companheiros, Touro Indomável, Taxi Driver). Muitos se espantam com este fato, já que o diretor sempre retratou personagens-fetiche masculinos (haja vista os já citados vários filmes feitos com De Niro e agora, Leonardo Di Caprio - Os Infiltrados, O Aviador, Gangues de Nova Iorque).
Na cena em destaque vemos quando Alice deixa o lugar onde morava com toda sua vida no banco de trás do carro (triste este pensamento, não?). Não recebeu nenhum tipo de ajuda governamental; não tinha economias e nem posses. Mas quer tentar a vida em outro lugar. Despede-se de sua melhor amiga. Liga o rádio do carro e na estrada começa a tocar Daniel, de Elton John. É daquelas baladas que somente o astro inglês sabia fazer, lenta, melódica ao extremo. A estrada é longa e seu final desconhecido, como a vida. A música, assim como toda a arte, como dizia Nietzsche, serve como alívio para não sermos destruídos pelas verdades da vida.
Particularmente queria ter palavras melhores neste momento para declarar o quanto acho o sexo feminino superior ao masculino. Afinal de contas não são elas que criam guerras nem respondem pela quase totalidade da violência, somente para ficar em dois exemplos de pontos baixos dos feitos humanos. Penso em quanto melhoraria o planeta com mais pessoas como minha mãe, minha avó, ou, conforme descurbo a cada dia, minha surpreendentemente forte esposa.
Só com meus exemplos já vejo como foram árduas as batalhas enfrentadas durante as últimas décadas pelo sexo feminino. Não à toa, o típico macho urbano ocidental anda perdido em seu papel. Não estava acostumado a reconhecer tamanha demonstração de força, resiliência perseverança e de ainda ter tempo para fazer valer ainda a beleza no mundo. Parabéns a elas.
Ah, a outra motivação óbvia deste post foram os Oscar ganhos HOJE por Kathryn Bigelow, a primeira mulher a ganhar um Oscar de direção em 82 anos, por Guerra ao terror.
Ironicamente, um filme masculino dirigido por uma mulher, assim como "Alice..." é dirigido por um homem. Sim, há esperança de igualdade no mundo.
ALICE NÃO MORA MAIS AQUI (Alice does´t live here anymore, 1974)
Diretor: Martin Scorcese
Elenco: Ellen Burstyn, Harvey Keitel, Diane Ladd
Tradução Trailer
Quer ouvir na íntegra? Então, play!
Daniel is travelling tonight on a plane
I can see the red tail lights heading for Spain
Oh and I can see Daniel waving goodbye
God it looks like Daniel, must be the clouds in my eyes
They say Spain is pretty though I've never been
Well Daniel says it's the best place that he's ever seen
Oh and he should know, he's been there enough
Lord I miss Daniel, oh I miss him so much
Daniel my brother you are older than me
Do you still feel the pain of the scars that won't heal
Your eyes have died but you see more than I
Daniel you're a star in the face of the sky
Daniel my brother you are older than me
Do you still feel the pain of the scars that won't heal
Your eyes have died but you see more than I
Daniel you're a star in the face of the sky
Daniel is travelling tonight on a plane
I can see the red tail lights heading for Spain
Oh and I can see Daniel waving goodbye
God it looks like Daniel, must be the clouds in my eyes
Oh God it looks like Daniel, must be the clouds in my eyes